Diário da bolsa – 31jul a 06ago 2018

Inspirada em Mario Levrero, que escreveu o seu “Diario de la beca” e, quem sabe, em Ben Lerner, cujo romance Leaving Atocha Station se passa no período de seis meses em que o protagonista passou em Madrid após ganhar uma bolsa de estudos (ou até mesmo no meu amigo Junot, que fez um diarinho enquanto estava na África do Sul), cá estou eu, a escrever um Diário da bolsa. Não tenho pretensões literárias nem transcendentes com isso, mas registrar situações que me chamaram a atenção nos meus dias de doutorado sanduíche em Nova York. Por isso, a intenção é sempre fazer descrições breves sem desdobramentos ou argumentações. A princípio, não impus nenhum padrão. Não sei quanto tempo isso pode durar, uma vez que não acontecem coisas interessantes todos os dias. Talvez a gente também pare de se surpreender com a terra estrangeira. Ou talvez eu me canse de me expor e resolva manter as anotações no meu caderninho. No final das contas, talvez seja uma vingança para todas as vezes que eu pensei que fosse lembrar de algo em viagens para esquecê-lo no dia seguinte.

31/07/2018

  1. Nova York parece outro lugar no calor.
  2. Na 75th Street, em Woodhaven, vi um garoto, de uns onze ou doze anos, com o braço inteiro tatuado.
  3. Na linha J do metrô, um homem gordo, em farrapos, adentrou o vagão em que eu estava. Ele começou a cantar como se estivesse em um musical, mas na verdade pedia esmola. No começo pensei se tratar de uma performance artística. Não tive coragem de olhar seu rosto.

01/08/2018

  1. A mulher que me atendeu no Bank of America comemorava com um “yey” a cada passo bem sucedido no processo de abertura de conta.
  2. Conversando com a Wanda, a moça que abriu minha conta no Bank of America, perguntei se ela era uma new yorker logo após ela ter me perguntado se eu gostava da cidade. Ela disse que sim, mas que quando criança sua mãe nunca a levou para Manhattan (“to the city”). Completou: talvez seja uma forma de nos proteger.
  3. O maquinista do metrô coloca a cabeça para fora da janela para ver se não há ninguém entrando ou saindo dos vagões.
  4. Na New York Public Library (NYPL), uma funcionária gritava em um dos corredores do terceiro andar que havia encontrado um garoto e uma garota juntos no banheiro. Ela apontava os dois com os dedos.

02/08/2018

  1. A xenofobia velada passaria desapercebida para os mais ditraídos: as atendentes do consultório médico fingiam não entender o que falava, numa espécie de preciosismo linguístico. A enfermeira se irritou porque eu não sabia meu peso em libras e minha altura em pés.

03/08/2018

  1. Numa lanchonete da Broadway de Astoria, a garçonete não me deixava esvaziar a caneca de café.
  2. Em uma Rite Aid, mesmo depois de eu ter afirmado várias vezes para a atendente que eu não possuía o cartão da loja que me ofereceria mais de 50% de desconto na compra, ela de desdobrou para que eu usufruísse da promoção: perguntou para outra cliente se ela possuía o cartão e por fim requisitou o desconto ao gerente.

04/08/2018

  1. Andando por Mid-Manhattan, percebi que os sem teto dormiam sentados em cadeiras ou bancos, nunca deitados.

05/08/2018

  1. Um esquilo passou vários minutos me encarando e gritando no Central Park.
  2. Demorei quatro horas para ir do Central Park sul até Astoria: as alterações sofridas pelas linhas de metrô no final de semana me fizeram tomar inúmeros trens erroneamente.

06/08/2018

  1. A atendente de uma cafeteria fingiu escutar a palavra “bathroom” quando eu falava “iced coffee”.
  2. Um oriental passou pela Broadway de Astoria empinando uma moto.
  3. Na sala de leitura da NYPL não é permitido deixar garrafas d’água sobre a mesa nem dormir.
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Elevadores

As portas dos elevadores na Argentina são manuais.

É claro que afirmar isso equivale àquele tipo de generalização: os paulistas são workaholics, os cariocas não gostam de trabalhar, os europeus são pessoas frias. Ou seja: uma debilidade preguiçosa do pensamento. Uma ansiedade de burrice. É claro também que os exemplos utilizados são dos mais estúpidos. Mais certo seria comparar a generalização a afirmativas como: nenhuma casa no Brasil tem calefação, toda ducha no exterior tem uma banheira debaixo dela, os americanos só comem hambúrguer. Ainda sim caí numa espécie de descrição negativa do meu país (que é muito comum) no primeiro da segunda série de exemplos. Apesar de ser incapaz de estabelecer uma relação simples entre sentenças, espero fortemente que meu ponto tenha sido compreendido.

Ou seja, obviamente nem todas as portas dos elevadores na Argentina são manuais. Aquele do hotel perto da 9 de Julio não era. Mas os que estavam nos prédios da Calle 61, da Peña e na gaiola do Paseo Colón eram sim bem manuais. Isso significa que setenta e cinco por cento do universo dos elevadores em que entrei na Argentina tinham aquele mecanismo: os passageiros esperavam o elevador chegar para puxar primeiro uma porta, depois outra. Ao entrar ou ao sair, deviam fechar uma porta, depois outra. Ou seja, são cinco comandos a se fazer ao entrar: abrir, abrir, fechar, fechar e apertar um botão. O botão pode ser apertado antes de fechar, fechar também.

Acontece que esses preciosos segundos de abre-abre-fecha-fecha até hoje haviam sido poupados por mim. No prédio da Abolição, o elevador tem uma porta que automaticamente se abre ao chegar no andar determinado. O esforço maior é ao entrar, que a porta do andar abre para fora e os passageiros devem puxá-la. É bem pesada. Mas fecha sozinha acertando nossos calcanhares se não tomamos os devidos cuidados. Porém, para sair, é só dar aquela empurrada e está tudo resolvido. O do prédio da Padre Vieira, mais moderno, só exige o esforço de apertar o botão.

Ora, mas por que as portas dos elevadores da Argentina merecem esse destaque? Simples: porque ná Páscoa ocorreu o que eu temia: três brasileiros se esqueceram do comando de fechar-fechar ao sair do elevador, de forma a escutarmos desde o lendário apartamento 9B uma sirene que levou o Junot a constatar que sim, havíamos deixado a porta do elevador aberta. O mesmo no qual enunciei que “o elevador é o meio de transporte mais seguro do mundo, só ganha do avião”, com medo da movimentação estranha daquele meio de transporte certo dia.

O mesmo país que tem porteiros eletrônicos, que são televisões que exibem a cara de um funcionário em uma remota central de segurança, tem também esses elevadores tão analógicos. O uso das portas parece revelar muito de mim.

(Por fim, é tomando meu chá de limão La Virginia de trinta pesos argentinos comprado numa vendinha que afirmo: toda comida no Brasil é melhor e ponto final).

“Vai pra Cuba!”: lógica do turista X lógica do viajante

A seguir, uma parte de minha tese de doutorado – sobre as relações entre o jornalismo cultural dos anos 1980 em Cuba e a literatura de Leonardo Padura – pertencente à seção que (até agora) se chama “‘Vai pra Cuba!’: como o imperativo convicto se transformou em interrogações hesitantes”:

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Foto tirada por mim, em dezembro de 2015, que me remete à parte de Elia Suleiman em “7 días en La Habana”.

“O que mudou e pelo que Cuba passou nos últimos quarenta anos?

As esquerdas assumem ainda uma visão extremamente monolítica sobre a ilha, como se ela comportasse um a-historicismo capaz de sustentar nossos discursos. Quando leio sobre e observo fotos da Revolução Cubana, por exemplo, é despertada em mim uma afetividade tremenda. Encaro como um desafio saber manejar o aspecto afetivo com a consciência de que Cuba é um país de verdade. Por mais que as construções sem reforma e sem pintura, os carros antiquíssimos e os cigarros acesos em locais fechados deem a impressão de que o país está parado no tempo, muita coisa aconteceu nas últimas décadas: várias gerações de cubanos nasceram, a União Soviética desapareceu, uma crise econômica atingiu em cheio a nação, Fidel Castro se afastou do comando do país e morreu. Colocar em perspectiva os imaginários estáticos e o país em dinamismo é extremamente importante para olhá-lo de forma honesta.

Esse conflito entre as formas de olhar Cuba está na parte dirigida pelo palestino Elia Suleiman do filme coletivo 7 días em La Habana [2012]. Trata-se do trecho correspondente à quinta-feira, “Diary of a beginner”, quase sem diálogos, em que Suleiman se hospeda no Hotel Nacional e aguarda para falar com el comandante. Não se sabe qual é sua missão ali, mas a espera é composta de cenas externas – passeios pelas ruas da cidade, ida ao Zoológico, ao bar El Floridita e à Playa 16 – e internas – visita à Embaixada Palestina e ações no saguão e quarto do hotel. Inicialmente, Suleiman observa uma mulher que posa para o companheiro em cima de um automóvel cor-de-rosa antigo, enquanto o motorista, ignorado, tenta incessantemente fazê-lo funcionar. Logo em seguida, vê três mulheres que estão montadas no histórico canhão da bateria de Santa Clara, também para serem fotografadas por um rapaz. Quando se encontra no bar, um estrangeiro pede a Suleiman que tire uma foto sua com uma mulher que o acompanha, a qual está claramente desconfortável com a situação, em frente à famosa estátua de Ernest Hemingway. Esses três momentos são bem significativos do tipo de relação que o estrangeiro costuma ter com Cuba: um local para se fotografar, um museu a céu aberto – para usar uma denominação recorrente –, bem como um destino para turismo sexual. Assim como nos museus, em que objetos são expostos e organizados fora de seu contexto original, parece haver um descompasso e uma incomunicabilidade entre a experiência dos turistas observados pelo protagonista de “Diary of a beginner” e a realidade local.

Uma perspectiva menos óbvia do país ocorre em outras cenas, geralmente em enquadramentos que evidenciam caminhos – corredores, ruas, estradas: a camareira que ajuda Suleiman a encontrar seus aposentos no labiríntico Hotel Nacional, as pessoas que observam o mar, o palhaço saindo de seu trabalho no zoológico, os adolescentes escutando e dançando reggaeton. Há também as repetitivas ocasiões em que Suleiman está diante da televisão em seu quarto de hotel assistindo a um interminável discurso de Fidel Castro em que se escutam todos os conhecidos e anacrônicos bordões anti-imperialistas socialistas, ainda hoje utilizados por parte do movimento estudantil brasileiro. Essas cenas, juntamente com aquelas de cubanos observando o mar, geram uma sensação de claustrofobia que me remete aos meus primeiros dias em Cuba. Suleiman, que é um estrangeiro, assume uma postura observadora distinta dos demais turistas dessa parte do filme.

A respeito disso, é possível fazer uma associação com a diferenciação estabelecida por Paul Bowles em The sheltering sky [1949] entre o turista e o viajante. Enquanto o primeiro tipo de pessoas aceita sua civilização e volta para a casa após alguns dias ou semanas, o viajante está o tempo todo fazendo comparações entre culturas e estabelecendo avaliações críticas porque não pertence mais a um lugar que a outro. Manuel Vázquez Montalbán, em Quinteto de Buenos Aires [1997], interpreta essa informação da seguinte forma: “entre el turista y el viajero se marca la diferencia del que sabe los límites de su itinerario y el que se entrega a la lógica abierta del viaje”. Não é à toa que seu detetive Carvalho viaja a Buenos Aires assumindo a segunda lógica. Ou seja, a investigação de qualidade requer uma disponibilidade à novidade e não está determinada por roteiros pré-definidos. Suleiman, embora visite pontos turísticos, não parece estar mergulhado na aura do turista, mas na do viajante: ele, sozinho e alheio à língua espanhola, observa o que muitas vezes fica invisível.

Algo semelhante ocorreu comigo. Eu, em La Habana, mulher e sozinha, pensei, inúmeras vezes, estar vivendo erroneamente minha experiência cubana. Hoje sei que a razão desobstruída do viajante se sobrepôs ao meu afeto, que já é uma espécie de itinerário: perdi minha carteira no primeiro dia de viagem, vivi com passaporte e alguns poucos euros por nove dias, antecipei minha volta justamente por isso, fui à delegacia relatar o ocorrido, fui a bancos procurar solucionar a situação, fui alvo de desconfiança de minha anfitriã, pesquisei na Biblioteca Central de la Universidad de La Habana e na Biblioteca Nacional de Cuba José Martí, frequentei os cinemas da Avenida 23 durante o Festival del Nuevo Cine Latinoamericano, fui assediada ininterruptamente pelos taxistas e homens nas ruas. Não fui a Varadero, não conheci praias paradisíacas, não passeei de carro antigo, não fumei nenhum charuto, não tive guia turístico. Ou seja, Cuba se mostrou para mim, naqueles dias, fora de qualquer roteiro pré-definido: era um país em movimento.

Embora um pouco traumática, essa experiência foi determinante para ressignificar minha pesquisa. A literatura de Leonardo Padura não deveria estar a serviço de minhas convicções, mas o oposto. Era hora de olhar Cuba e sua cultura de uma perspectiva do viajante.”

Borboletinhas

“- O que são essas borboletinhas de banheiro?
– Na verdade são moscas que se alimentam da sujeira do ralo”.

Diálogo que volta à memória quando, debaixo do chuveiro, observo uma dessas borboletinhas na parede. Fecho os olhos e ela é de repente um brilho verde na minha retina. Quanto tempo pode durar? Com medo que desapareça, abro os olhos.

Gosto do lusco-fusco. Do pôr-do-sol.

Por isso que aquele cachorro preto, de focinho esbranquiçado de velhice, numa calçada do Cambuci, em São Paulo (capital), me encheu os olhos de lágrimas agora há pouco. Saiu da casa, solto, acompanhando seu dono. Do outro lado da rua eu observava o cão, um caminhão, o cão, um ônibus, o cão, um carro.

V

Logo após o almoço, V caminhava pelo campus da universidade -rumo ao seu canto da biblioteca, cuja cadeira estofada ostentava o formato e o suor de suas nádegas, além da mancha de um café amargo derrubado por ela mesma, bem como os restos de um chiclete, agora bege, de alguém que previamente também nutriu a cadeira com seus fluidos corporais- quando viu que a traseira de um carro preto-desbotado beijava levemente a dianteira do carro dourado de trás.

Sentiu uma leve animação, se é que vocês me entendem, pensando em como o design dos veículos é projetado de forma a personificá-los com rostos. Os carros masculinos têm cara de bad boy, os femininos têm olhos redondos -faróis, hum- de bom moço.

V não conseguiu ver qual era a personalidade dos carros envolvidos no ato libidinoso, mas dentro do veículo preto-amarronzado havia uma mulher de óculos grandes que se esforçava em girar a direção não-hidráulica para tirar seu carro daquela vaga ingrata, abaloada, em uma rotatória.

Feito dois-de-paus, V parou ao lado da janela da motorista para olhá-la. Acostumada a ser invisível na biblioteca, pensou que observaria o busto-vivo daquela mulher, pelo retângulo quase televisivo que era o vitrô do veículo, assim, impunemente.

Diferentemente do Datena, a mulher-motorista retribuiu o olhar. Não saberia a quatro-olhos que era errado tocar o carro alheio? Mesmo que o pára-choques sirva para amortecer grandes impactos -imagine então apenas uma encostadinha-, a propriedade alheia merece muito respeito, que-é-bom-e-eu-gosto. Será que ela não sabia? Ela não sairia do carro, com a bunda suada de calor, para constatar que não havia qualquer estrago, mas deixaria um bilhete, honesto, com seu contato, mesmo assim?

V cruzou o olhar com o da mulher de óculos e se mijou. Trancou as nádegas e saiu em marcha-atlética. Na biblioteca, com um novo fluido acrescentado ao estofado da cadeira, V desenhou um pinto-eterno na mesa de madeira.

Autocentramento

No ano em que retomei meu modus operandi dos vinte e poucos anos, já estava com quase trinta. Logo no início daquele período, uma garota com síndrome persecutória colocou em xeque minha percepção da realidade: estamos sendo vigiados e seremos perseguidos.

Ora, desde meu nascimento, na redemocratização do Brasil, até poucos anos atrás, isso seria risível, mas em tempos golpistas, o imprevisível é a regra e o fundo do poço é aumentado diariamente.

O óbvio trazido por aquela garota tinha uma novidade, porém: o estado de alerta. Ela parecia estar mais atenta ao entorno do que eu e os outros. Tudo bem. Sempre fui distraída pra muitas coisas. Sempre me contam em formato de história aquilo que aconteceu diante dos meus olhos em um evento qualquer. Parece uma terceirização da primeira pessoa. Talvez seja meu inconsciente alimentando meu gosto pelas narrativas, mas creio que seja apenas um autocentramento exagerado, como quando meu cérebro desliga diante dos discursos intermináveis e inflamados do Alex, a quem chamo jocosamente de Fidel Castro, justamente por essa característica. Operação semelhante fazem muitos de meus amigos com suas mães ao telefone: afastam a escuta enquanto elas não param de falar. Por sorte, a minha mãe é telegráfica.

Foi em um desses meus “afastamentos do gancho” que aquela garota evaporou e iniciou o que Levrero, no Diário de la beca, que antecede La novela luminosa, chama de período de centrifugação: “[a]lgo intangible en mí aleja a la gente de mí“. O Arnaldo bem me disse recentemente que há algo no meu mapa astral que faz com que eu seja muito apegada a tudo e a todos ao meu redor. Há algo de contraditório, porém, nesse querer me ancorar ao mesmo tempo que desejo me desligar.

Relaciono isso, de certa forma, à passagem de João Gilberto Noll como artista visitante da Unicamp. Meu grande amigo Rafa, responsável por ciceroneá-lo, me convidou certa vez para ir à Casa São Jorge com os dois. Ali, Noll disse uma frase que me marcou profundamente. Obviamente, não me lembro ipsis literis de sua fala, mas era algo como “passei um tempo da minha vida sem amar, foi um momento horrível”. Não conseguia entender como a mesma pessoa que afirmou veementemente isso podia passar por mim inúmeras vezes em Barão Geraldo sem me dar um oi. Não por apatia, mas por não se lembrar de mim. Mas também não se lembrou do Rafa em Fortaleza, num dia em que ele parecia especialmente feliz: “Quem é você?”, ele perguntou no aeroporto.

No ano em que eu estava com quase trinta, me tornei uma autocentrada em estado de alerta. A partir daí, o período de centrifugação se tornou levemente consciente. Escorpiana, passei a me vingar daquela vez em que, com quatro ou cinco anos, fazendo xixi no banheiro da escola, a porta se abriu com um vento, revelando um garoto que riu de mim com as calças abaixadas. Naquele dia, uma menina se colocou entre nós dois para cessar a gozação. Essa mesma garota, anos mais tarde, espalharia nudes meus pela cidade. Irônico e contraditório, como tudo nesse texto.

Meu autocentramento quer achar sentidos em retalhos de memórias, às vésperas do meu aniversário, pois está com síndrome persecutória. Toda síntese, porém, é burra.

A premonição é inútil

Horóscopo, búzios, tarô, santos, orixás, quiromancia, cartomantes, borra do café. Tudo para se atingir o não dito: esse entre-lugar das palavras onde os sentidos são resistentes, se escondem e não se penetram. Num desajeitado abraço incerto se vê uma descamação do couro cabeludo já desprendida e quase caindo do cabelo dele. A virada de pescoço insegura, as perguntas egocêntricas, a fratura do diálogo, nada disso é mais humano que a pele inanimada que estava prestes a cair no chão. Diferentemente do que dizem por aí, há muito de voluntário no gesto. O gesto é mensagem. O gesto é linguagem. A descamação é ele. É parte morta dele. É isso que quero, afinal? A parte morta dele é o não dito. E para sair do não dito deve voltar a ser gesto. E o gesto atrai menos. É gente, é inumano. É isso que não quero, afinal? A premonição é inútil.

(Enjoy the silence.)